Grupo de montanhismo

Antes de mais nada, acho importante subir montanhas em grupo. São os guias profissionais que nos ensinam da maneira correta o que e como fazer trilhas por aí. Minha divagação tem mais a ver com a psicologia de massa do que com os diversos grupos de montanhismo espalhados no país.

Não tenho formação em psicologia, mas como todo bom curioso já fui atrás de respostas que tentem explicar a violência maluca das torcidas organizadas, o comportamento doentio de (vários) “petralhas” e “coxinhas” nas manifestações políticas, além das motivações neonazistas e coisas do tipo. As respostas direcionam esse comportamento para a necessidade de identidade coletiva das pessoas, pois estar em grupo nos deixa mais fortes, e isso melhora a auto-estima e nos deixa “felizes”.

Mas por que razão estou comparando neonazistas com grupos de montanhistas? Quanto exagero, certo? Já chego lá! Além de subir morros, gosto de correr na rua pra manter o condicionamento, e sempre passo por assessorias na pista. O que vejo é que a galera da corrida se sente mais forte, mais rápida, e mais dona do pedaço, e o que presencio são os grupos atropelando todo mundo e agindo como se fossem os donos do pedaço. Não acho que seja maldade, mas é esse tal sentimento de grupo que nos cega e tira toda a humildade.

Já vi grupos de malucos estourando rojões no meio do mato (ah, enfim cheguei no tópico), atropelando o acampamento alheio, além de membros nada gentis com os demais. De novo, é esse sentimento de força que nos cega e faz pensar que somos melhores que os demais, e que temos direitos maiores do que qualquer outro trilheiro.

Andar em grupo é bom, mas muitas vezes nos tira o privilégio de ouvir a natureza, de contemplar um animal e, acima de tudo, nos deixa tão imbecis quanto quando estamos na cidade. Ora, se subimos morros para fugir disso tudo por que reagimos da mesma forma? Meu palpite é que tem a ver com a falta de reflexão sobre nossa motivação por fazer trilhas. Desse jeito, reproduzimos o mesmo comportamento do dia-a-dia na cidade quando estamos na trilha, e agimos como imbecis. Infelizmente, se não meditarmos sobre nós e nossas intenções, continuaremos a levar a mesma vida de gado no curral da cidade.

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Por que subimos montanhas?

Toda vez que reflito a respeito vem uma nova resposta na cabeça: para fugir das pessoas, penso agora, já que a vida em sociedade é difícil e cansativa, e de lá podemos contemplar nossa insignificância.

Sou do tipo montanhista equipado, mas só porque no tempo de escoteiro dividíamos uma canadense entre 7, onde deveriam caber 4, e carregávamos as panelas velhas da mãe, naquelas mochilas verdes de lona. Hoje quero “comodidade” nas montanhas. Mas o fato é que isso não importa. Vejo todo o tipo de pessoas encarando trilhas pesadas, íngremes, sem preparo, guiadas pelo mesmo fascínio que o meu, o prazer de ver as coisas lá do alto.

Como na vida urbana, no mato também existem problemas a serem contornados: animais peçonhentos, falta d’água, chuva sobre a barraca, além do cansaço. Entretanto, há uma diferença básica e que muda toda a lógica quanto ao tipo de problemas enfrentados. No trabalho, precisamos suportar pressões abstratas, criadas por nós – ou por nossos chefes e colegas – que necessariamente não retratam um problema de verdade (com exceções, claro, afinal um médico encara sérios problemas na mesa de cirurgia).

O fato é que boa parte dos problemas cotidianos são “inventados”, por assim dizer, e não traduzem uma necessidade básica, de sobrevivência. Deixa eu explicar: Hoje você está lendo esse texto no conforto de uma sala, provavelmente sentado em um sofá, com eletricidade e sem mosquitos. Lá fora, o contato com o ambiente é mais direto, e as preocupações são da mesma forma: quanto tempo tenho até o anoitecer? Minha barraca vai aguentar esse vento? prossigo por esse ou aquele caminho? Estou hidratado, alimentado?

Não quero com isso defender a ideia de voltarmos a viver largados e pelados na selva (embora tenha gente curtindo isso no Discovery Channel). Só quero dizer que a vida de hoje nos transformou, distanciando-nos da essência. Agora temos sabonete, plantações e remédios, mas perdemos a natureza peregrina de nossos ancestrais. Por aí já tem muita gente inteligente discutindo isso (como Daniel E. Lieberman) e ainda não se sabe como nos adaptaremos geneticamente ao nosso novo estilo de vida sedentário.

Como toda a história do homem cabe no último minuto do dia 31 de dezembro do calendário (só para relembrar a série Cosmos), somos, do ponto de vista evolutivo, muito mais primitivos (caçadores-coletores) do que trabalhadores engravatados, e talvez por isso precisemos passar um fim de semana no meio do mato de vez em quando. Ouso dizer que isso se aplica a todos, afinal, você pode não querer escalar o Everest, mas sabe muito bem o efeito positivo de um dia ensolarado no inverno naquele parque da cidade.