Namastê

Sinal fechado, um Sr se aproxima da minha janela. Roupas largas, cabeça raspada e alguns livros debaixo do braço. Bhagavad Gita entre eles. Cumprimenta com um olá, como vão vocês!

– Muito bem, respondo, mas sou ateu! Não tenho interesse nos livros.

– Ah, interessante, afirma ele. Pergunta-me sobre que linha sigo: Nietzche, Sartre?

– Digo sim, e Camus! Todos eles!

– Sabe que eu já estudei Filosofia na Universidade, e sei que é necessário um esforço filosófico maior para provar o que não existe do que o que existe? Comecei a estudar o Gita e hoje tenho a certeza da existência Dele.

O sinal abre, nos despedimos, sem ao menos poder responder-lhe:

Imagine um mundo sem dogmas. Retire todas as divindades conhecidas e o que nos resta? – A Vida, lhe responderia. E prosseguiria: A filosofia não precisa ser racional, categorizada e esquartejada em um alcorão. A filosofia existe apenas para responder uma pergunta: vale ou não a pena viver?

Influenciado pelo pouco que leio, Camus me vem à mente como um raio. A vida sempre vale a pena ser vivida! E é essa vida, no presente, que importa. Uma filosofia serve a cada homem e a cada mulher para nos mostrar as contradições do universo, o quão difícil e árdua é a tarefa de viver, e o quão indiferente a natureza está para nossa existência.

Acreditar em deuses é projetar uma felicidade que nunca chega. Puxar aquele cobertor curto que jamais protege os pés. Acreditar em deus é renegar o real e empurrar a pedra de Sísifo esperando um mágico lhe tirar o fardo. É acovardar-se na esperança infantil, é apoiar-se na tranquilidade fantasiosa das fábulas e deixar de viver.

Se for para ler um testamento que nele conste apenas o Eterno Retorno. O argumento Nietzcheniano basta para desbancar qualquer crente: você viveria sua vida novamente e da mesma maneira que viveu até aqui? Essa é a bússola. A experiência, sua direção.

8M

Segunda-feira, dia de ir pra praia, já que domingo estava proibido. Covid-19 pegando solto, o vírus moral, faz esse #8M ser igual aos outros, a não ser pelas máscaras. O lockdown é fake, assim como nossa preocupação com os outros.

Se saímos, ela também podia (precisava). Vestia uma saia marrom desbotada, e uma blusa branca com alguns rasgos – no tecido e na vida – revelando sua origem humilde. Empurrava uma bicicleta antiga, com um acento infantil na frente.

Carregava nele na bicicleta o neto Ruan, menino simpático, que falava do zoológico de Curitiba numa visita aos parentes. Ela morava em Itajaí há mais de 10 anos, vinda de Ponta Grossa, no Paraná.

Nas mãos, carregava um saco com latas de alumínio. Era o Dia Internacional das Mulheres, mas não vi flores, nem presente, nem sorriso. Ainda falta muito, pra muita gente.

Cotidiano

Elas falavam sobre deus. Lamentavam suas dores, mas agradeciam ao senhor as graças da cura. Cervicalgia em uma, bursite em outra; lombalgia, artrose, tendinite, fascite (o pulso ainda pulsa!).

Eletrodos agulhavam seus músculos, a conversa seguia. A mais jovem, caixa de supermercado, relembrava a última ida à UPA: minha pressão estava em 19.7. O médico me deu um comprimido, partido no meio, e disse-me que dormiria por 3 dias. Ria ao lembrar: mal dormi no primeiro, de tão “pilhada” que estava. Trabalhava 12 horas por dia, com um dia de folga na semana. “Sempre acabada”, dizia.

Nossa sociedade está enferma. Se você é um desses liberaizinhos que pensa que passou trabalho na vida, acorde. No mundo real tem gente se fodendo de verdade. Nesta clínica de Fisioterapia é fácil perceber: mulheres sofrem de lesões repetitivas, lavam, passam, esfregam; as sortudas digitam, empacotam. Homens, uma mão esmagada aqui, uma lombar cheia de hérnias ali. Ambos se acidentam de moto. São entregadores, uberizados, sonhando com a riqueza.

Quando não é o corpo, é a mente. Mais de 11 milhões de depressivos. Quem não sofre de ansiedade hoje em dia? Só você, o Herdeiro, que não. O irônico é que esta clínica já abrigou uma igreja evangélica. Elas agradecem a deus e aos médicos numa tacada só. Para quem não tem tempo de planejar a dieta, fazer um treininho de crossfit ou ler um livro, precisa otimizar sua vida. Tempo é dinheiro!

Ouça Nola Darling:

Não, ela não é uma cantora. Ela é lutadora, e vai dar um soco no teu estômago, se você não for mais um red pill imbecil infestando esse planeta. A personagem de Spike Lee em She’s Gotta Have it está de volta, com a mesma beleza, os mesmos dilemas e, ao que parece, em uma Nova Iorque mais misógina do que nunca.

Nas duas temporadas da série, a atriz DeWanda Wise mostra como deveria ser uma vida livre, através da protagonista da história. Pra lá de todos os estereótipos, ela quer se encontrar – como todo mundo, mas tem sempre algo querendo a minar: ela é mulher, preta e pansexual. Preconceito e machismo são os principais obstáculos.

Machismo este que está em toda parte, em Nova Iorque e em Bagé. Começa em casa, com o desrepeito às nossas mães, depois companheiras, filhas, e acaba na rua, ou nas redes sociais. Invadir a liberdade das mulheres é nossa especialidade, no assobio, nas piadinhas e, agora, na internet.

Spike Lee dirige, escreve, mas nessa versão para a Nerflix não aparece. É de uma sensibilidade extrema, muito feminina. Se Woody Allen está para Manhattan no cinema, certamente Lee está para o o outro lado do Est River. O Brooklin é muito bem retratado na série, e podemos ver o mesmo efeito de cooltização de regiões antes desprezadas, que também acontece por aqui.

Pra finalizar, se alguém leu até aqui, sugiro a excelente crítica de Naomy Cary, muito além da minha visão simplista e sem lugar de fala.

Cotidiano

Vendia chaveiros na balsa por R$5. Viciado em crack, pedia desculpas por atrapalhar a paz dos presentes, e contava que, após ter sido esfaqueado no pescoço em uma briga por pedra, resolveu buscar ajuda. Estava em tratamento para se livrar do vício.

O vendedor mostrava a cicatriz no pescoço, profunda, ia de um lado ao outro. Seu sotaque era do nordeste, sua pele parda, roupas humildes. Eu, mesmo comovido, tive preguiça de abrir o alforge da moto, mesmo sabendo que os R$5 estavam lá, e que não me fariam falta.

Do meu lado, outro sujeito, pele negra, roupas rotas, pedia ajuda de alguém no celular. Após a apresentação do vendedor, ele escorou sua bicicleta, caminhou em sua direção, e sorrateiramente tirou algo do bolso e lhe entregou. Não pegou o chaveiro, o vendedor lhe agradeceu: “obrigado irmão, deus te abençoe”.

Em uma última tentativa, o vendedor pedia agora qualquer quantia, que pudesse lhe ajudar a pagar a passagem da balsa. Novamente me esquivei, baixei a cabeça e me apequenei. A travessia acabou, o ciclista ergueu-se na bike e passou na minha frente. Olhou-me dos pés a cabeça, acenou a cabeça sem esboçar emoção.

Entendi seu olhar. Julgava-me com razão. Talvez buscasse entender porque não quis comprar o chaveiro (o vendedor sugeriu que poderia ser de presente para alguém), talvez tivesse desprezo, ou talvez fosse minha própria consciência me acusando de negar uma simples ajuda.

Começamos a esvaziar a balsa, e 5 metros a frente minha moto apagou. Pesada, empurrei-a sozinho indignado por ninguém ter oferecido ajuda. Passavam com indiferença, era o horário da folga do almoço, todos tinha pressa.

Irônico, né!? A “ficha” da empatia só cai quando é você quem precisa de ajuda. Vociferamos nossos problemas como se fôssemos os mais importantes na Terra, mas tem gente se fodendo de verdade nesse planeta.

Na rua

Esqueci seu nome, afinal são mais de 30 mil pessoas vivendo nas ruas de São Paulo. Nos conhecemos na calçada de uma lanchonete. “Hoje é meu aniversário, você pode me ajudar?”, pedia.

Cabelo curto, batom vermelho e o corpo franzino em shorts jeans desfilavam pelo centro. Travesti, 28 anos, nascida em Belém, há mais de 10 anos na capital. Quem não quer comemorar seu aniversário?

Expulsa da calçada pelo segurança, reclamava o direito de pedir. “Eu não vou roubar ninguém, não sou proibida de falar com as pessoas”. A rua é pública!!!! Pegou os trocados e sumiu.

Manhã seguinte, novamente a encontramos. Queria café da manhã. Enrolada em um cobertor, a maquiagem apagada, uma presilha reveleva a peruca desajeitada. “Como foi? Só olhar pra mim”. Riu. Entrou na lanchonete e fomos embora.