8M

Segunda-feira, dia de ir pra praia, já que domingo estava proibido. Covid-19 pegando solto, o vírus moral, faz esse #8M ser igual aos outros, a não ser pelas máscaras. O lockdown é fake, assim como nossa preocupação com os outros.

Se saímos, ela também podia (precisava). Vestia uma saia marrom desbotada, e uma blusa branca com alguns rasgos – no tecido e na vida – revelando sua origem humilde. Empurrava uma bicicleta antiga, com um acento infantil na frente.

Carregava nele na bicicleta o neto Ruan, menino simpático, que falava do zoológico de Curitiba numa visita aos parentes. Ela morava em Itajaí há mais de 10 anos, vinda de Ponta Grossa, no Paraná.

Nas mãos, carregava um saco com latas de alumínio. Era o Dia Internacional das Mulheres, mas não vi flores, nem presente, nem sorriso. Ainda falta muito, pra muita gente.

Cotidiano

Elas falavam sobre deus. Lamentavam suas dores, mas agradeciam ao senhor as graças da cura. Cervicalgia em uma, bursite em outra; lombalgia, artrose, tendinite, fascite (o pulso ainda pulsa!).

Eletrodos agulhavam seus músculos, a conversa seguia. A mais jovem, caixa de supermercado, relembrava a última ida à UPA: minha pressão estava em 19.7. O médico me deu um comprimido, partido no meio, e disse-me que dormiria por 3 dias. Ria ao lembrar: mal dormi no primeiro, de tão “pilhada” que estava. Trabalhava 12 horas por dia, com um dia de folga na semana. “Sempre acabada”, dizia.

Nossa sociedade está enferma. Se você é um desses liberaizinhos que pensa que passou trabalho na vida, acorde. No mundo real tem gente se fodendo de verdade. Nesta clínica de Fisioterapia é fácil perceber: mulheres sofrem de lesões repetitivas, lavam, passam, esfregam; as sortudas digitam, empacotam. Homens, uma mão esmagada aqui, uma lombar cheia de hérnias ali. Ambos se acidentam de moto. São entregadores, uberizados, sonhando com a riqueza.

Quando não é o corpo, é a mente. Mais de 11 milhões de depressivos. Quem não sofre de ansiedade hoje em dia? Só você, o Herdeiro, que não. O irônico é que esta clínica já abrigou uma igreja evangélica. Elas agradecem a deus e aos médicos numa tacada só. Para quem não tem tempo de planejar a dieta, fazer um treininho de crossfit ou ler um livro, precisa otimizar sua vida. Tempo é dinheiro!

Ouça Nola Darling:

Não, ela não é uma cantora. Ela é lutadora, e vai dar um soco no teu estômago, se você não for mais um red pill imbecil infestando esse planeta. A personagem de Spike Lee em She’s Gotta Have it está de volta, com a mesma beleza, os mesmos dilemas e, ao que parece, em uma Nova Iorque mais misógina do que nunca.

Nas duas temporadas da série, a atriz DeWanda Wise mostra como deveria ser uma vida livre, através da protagonista da história. Pra lá de todos os estereótipos, ela quer se encontrar – como todo mundo, mas tem sempre algo querendo a minar: ela é mulher, preta e pansexual. Preconceito e machismo são os principais obstáculos.

Machismo este que está em toda parte, em Nova Iorque e em Bagé. Começa em casa, com o desrepeito às nossas mães, depois companheiras, filhas, e acaba na rua, ou nas redes sociais. Invadir a liberdade das mulheres é nossa especialidade, no assobio, nas piadinhas e, agora, na internet.

Spike Lee dirige, escreve, mas nessa versão para a Nerflix não aparece. É de uma sensibilidade extrema, muito feminina. Se Woody Allen está para Manhattan no cinema, certamente Lee está para o o outro lado do Est River. O Brooklin é muito bem retratado na série, e podemos ver o mesmo efeito de cooltização de regiões antes desprezadas, que também acontece por aqui.

Pra finalizar, se alguém leu até aqui, sugiro a excelente crítica de Naomy Cary, muito além da minha visão simplista e sem lugar de fala.

Cotidiano

Vendia chaveiros na balsa por R$5. Viciado em crack, pedia desculpas por atrapalhar a paz dos presentes, e contava que, após ter sido esfaqueado no pescoço em uma briga por pedra, resolveu buscar ajuda. Estava em tratamento para se livrar do vício.

O vendedor mostrava a cicatriz no pescoço, profunda, ia de um lado ao outro. Seu sotaque era do nordeste, sua pele parda, roupas humildes. Eu, mesmo comovido, tive preguiça de abrir o alforge da moto, mesmo sabendo que os R$5 estavam lá, e que não me fariam falta.

Do meu lado, outro sujeito, pele negra, roupas rotas, pedia ajuda de alguém no celular. Após a apresentação do vendedor, ele escorou sua bicicleta, caminhou em sua direção, e sorrateiramente tirou algo do bolso e lhe entregou. Não pegou o chaveiro, o vendedor lhe agradeceu: “obrigado irmão, deus te abençoe”.

Em uma última tentativa, o vendedor pedia agora qualquer quantia, que pudesse lhe ajudar a pagar a passagem da balsa. Novamente me esquivei, baixei a cabeça e me apequenei. A travessia acabou, o ciclista ergueu-se na bike e passou na minha frente. Olhou-me dos pés a cabeça, acenou a cabeça sem esboçar emoção.

Entendi seu olhar. Julgava-me com razão. Talvez buscasse entender porque não quis comprar o chaveiro (o vendedor sugeriu que poderia ser de presente para alguém), talvez tivesse desprezo, ou talvez fosse minha própria consciência me acusando de negar uma simples ajuda.

Começamos a esvaziar a balsa, e 5 metros a frente minha moto apagou. Pesada, empurrei-a sozinho indignado por ninguém ter oferecido ajuda. Passavam com indiferença, era o horário da folga do almoço, todos tinha pressa.

Irônico, né!? A “ficha” da empatia só cai quando é você quem precisa de ajuda. Vociferamos nossos problemas como se fôssemos os mais importantes na Terra, mas tem gente se fodendo de verdade nesse planeta.

Na rua

Esqueci seu nome, afinal são mais de 30 mil pessoas vivendo nas ruas de São Paulo. Nos conhecemos na calçada de uma lanchonete. “Hoje é meu aniversário, você pode me ajudar?”, pedia.

Cabelo curto, batom vermelho e o corpo franzino em shorts jeans desfilavam pelo centro. Travesti, 28 anos, nascida em Belém, há mais de 10 anos na capital. Quem não quer comemorar seu aniversário?

Expulsa da calçada pelo segurança, reclamava o direito de pedir. “Eu não vou roubar ninguém, não sou proibida de falar com as pessoas”. A rua é pública!!!! Pegou os trocados e sumiu.

Manhã seguinte, novamente a encontramos. Queria café da manhã. Enrolada em um cobertor, a maquiagem apagada, uma presilha reveleva a peruca desajeitada. “Como foi? Só olhar pra mim”. Riu. Entrou na lanchonete e fomos embora.

Grupo de montanhismo

Antes de mais nada, acho importante subir montanhas em grupo. São os guias profissionais que nos ensinam da maneira correta o que e como fazer trilhas por aí. Minha divagação tem mais a ver com a psicologia de massa do que com os diversos grupos de montanhismo espalhados no país.

Não tenho formação em psicologia, mas como todo bom curioso já fui atrás de respostas que tentem explicar a violência maluca das torcidas organizadas, o comportamento doentio de (vários) “petralhas” e “coxinhas” nas manifestações políticas, além das motivações neonazistas e coisas do tipo. As respostas direcionam esse comportamento para a necessidade de identidade coletiva das pessoas, pois estar em grupo nos deixa mais fortes, e isso melhora a auto-estima e nos deixa “felizes”.

Mas por que razão estou comparando neonazistas com grupos de montanhistas? Quanto exagero, certo? Já chego lá! Quando não dá pra ir pro mato, costumo dar uma corridinha pra desopilar, e sempre passo por assessorias na pista. Constantemente vejo que essa galera, em grupo, se sente mais forte e mais rápida, e saem atropelando todo mundo, como se fossem os donos do pedaço. Não acho que seja maldade, mas é esse tal sentimento de grupo que nos cega e tira toda a humildade. Contraditório, mas parece que o senso de coletividade se esvai, porque fica restrito a quem veste o mesmo uniforme.

Já vi grupos de malucos estourando rojões no meio do mato (enfim o assunto), atropelando o acampamento alheio, além de membros nada gentis com os demais. De novo, é esse sentimento de força que nos cega e faz pensar que somos melhores que os demais, e que temos direitos maiores do que qualquer outro trilheiro.

Andar em grupo é bom, mas muitas vezes nos tira o privilégio de ouvir a natureza, de contemplar um animal e, acima de tudo, nos deixa tão imbecis quanto quando estamos na cidade. Ora, se subimos morros para fugir disso tudo por que reagimos da mesma forma? Meu palpite é que tem a ver com a falta de reflexão sobre nossa motivação em ir pro mato. Desse jeito, reproduzimos o mesmo comportamento do dia-a-dia na cidade quando estamos na trilha, e agimos como os mesmos imbecis na hora do rush. Infelizmente, se não meditarmos sobre nós e nossas próprias intenções, continuaremos a levar a mesma vida de gado no curral da cidade.